ESPECIAL SÃO MAXIMILIANO - Parte 4





OFEREÇO-ME


Smarâmi é uma palavra do sânscrito que significa “minha lembrança”. O significado desta palavra provavelmente foi associado à lembrança de alguém que, tendo presenciado um determinado fato, estava em condições de atestá-lo como verdadeiro, como realmente ocorrido. Assim, com considerável probabilidade, smarâmi pode estar na origem da palavra grega mártyr, que significa exatamente testemunha, cujo significado, entre outras coisas, pode ser dado como “aquele que é capaz de, mediante uma ativação de sua lembrança, atualizar algo, atestando que este (algo) já se tenha ocorrido, que se trata de fato verídico”. Ora, tal significado não pode, absolutamente, deixar de ser atribuído a alguém que, de modo claro e notório, faz lembrar algo extraordinário, cuja recordação parecia estar sendo esquecida em determinado contexto.
Com efeito, seria nitidamente inusitado que, em um campo de concentração da Alemanha nazista, alguém fosse ouvido se expressando nos seguintes termos: ofereço-me para morrer no lugar dele. Ali, o mais comum parece ser a esperança de justamente salvar-se da morte, de não ser atrozmente esmagado pelos horrores que então se podiam presenciar. O que, pois, seria tão determinante a ponto de suscitar em alguém uma tal declaração num lugar como aquele? De fato, é incompreensível, a não ser que se considere o real valor das realidades que estavam em questão: vida e morte. No tocante à morte, esta é, inegavelmente, em si mesma indesejável, assombrosa, limitadora. Como contraponto da vida, é um mal ao qual a sã consciência rejeita e a própria Escritura diz para repudiá-la.


Hoje tomo o céu e a terra como testemunhas contra vós: eu te propus a vida ou a morte, a bênção ou a medição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas tu e a tua descendência, amando a Iahweh teu Deus, obedecendo à sua voz e apegando-te a ele. Porque disto depende a tua vida e o prolongamento dos teus dias. E assim poderás habitar sobre este solo que Iahweh jurara dar a teus pais, Abraão, Isaac e Jacó. (cf. Dt 30, 19).


Na perspectiva oposta, isto é, em relação à vida, podemos dizer que esta merece receber tudo em troca de si, mas isto acontece somente quando há alguém que reconhece o seu valor. Somente este seria capaz de expressar aquele “ofereço-me para morrer no lugar dele”. Fundamentalmente, a realização suprema desta expressão encontra-se em Jesus, que deu sua vida por nós quando ainda éramos pecadores. (cf. Rm 5, 7). Cristo ofereceu sua vida por amor, mas também porque sabia que apenas Ele, a própria Vida, abarcava em si o valor suficiente para pagar o resgate dos pecadores. Ao fazê-lo, Jesus deixou o maior exemplo de entrega que a humanidade já viu, exemplo que, como veremos, não seria esquecido.
Na Alemanha nazista que se fazia perceber em Auschwitz, o mundo pôde presenciar a uma das piores (senão a pior) demonstrações de crueldade que o homem é capaz de provocar, pôde vislumbrar a que ponto a maldade pode chegar. A morte parecia banal. Todavia, isto não era verdade. E a voz dissonante em relação a este panorama tenebroso fez-se ouvir, uma voz que somente se poderia fazer ouvir se estivesse tão convicta (como verdadeiramente estava) do valor da Vida que A visse mais importante do que a si mesmo, que A tivesse tão claramente diante dos olhos a ponto de ser difícil negligenciá-La, de não tê-La para si senão como uma smarâmi, uma voz que fosse, de fato, uma testemunha da Vida. Sem escusas, uma voz assim foi Frei Maximiliano Maria.
Frei Maximiliano foi um dos tantos que, durante a II Guerra Mundial, foi tornado prisioneiro pelos alemães e enviado a um campo de concentração nazista (no seu caso, Auschwitz). Naquele lugar, em meio às agruras que presenciava, não hesitou em atestar o valor da vida, em testemunhar que este valor, embora parecesse banal naquelas circunstâncias, em verdade não o era. Assim, quando viu um pai de família estremecer ante a morte que se aproximava, principalmente pelo fato de ter de abandonar mulher e filhos, eis que Frei Maximiliano rompe a fileira dos condenados e faz ouvir aquela voz dissonante: “ofereço-me para morrer no lugar dele”. Naquele momento, Frei Maximiliano se faz mártir, testemunha dAquele que também dera a sua vida no lugar de outras vidas. Em Auschwitz, pela atitude de Frei Maximiliano foi possível ouvir, em alto, bom e convicto gesto, que a vida é tão valiosa que é digna de ser entregue para ser, ela mesma, resgatada, tanto para o pai de família (que a salvou naquele momento) quanto para o próprio Frei Maximiliano (o que se daria na eternidade). Ao se oferecer, Frei Maximiliano proclamou a força e a graça da Vida sobre o apego orgulhoso a si próprio, o mesmo apego que levava alguns a matar outros apenas por si considerarem superiores e puros.
Absolutamente, aquele “ofereço-me” foi surpreendente. Ali se manifestava a oferta de quem vê na doação, no oferecimento, na caridade, a via privilegiada pela qual a vida poderia ser enobrecida, dignificada. Ao doar a vida, Frei Maximiliano não a perdia, perpetuava-a. A partir de seu gesto, filhos poderiam ser gerados pelo pai que ora se salvava da morte; filhos certamente também seriam gerados a partir do testemunho que se manifestava. Com sua entrega, Frei Maximiliano operava um verdadeiro recordar, um autêntico reviver daquela cena que se registrou naquele dia, no calvário. Sua entrega foi decisivamente uma smrtu (outra palavra do sânscrito que provavelmente se alia a smarâmi na origem do termo mártir), isto é, uma “memória”, uma recordação viva da oferta redentora da cruz. Com efeito, ao oferecer a sua vida, Frei Maximiliano não proclamava apenas o valor desta, mas junto com ela é proclamada a alta dignidade da doação, da gratuidade que se doa, da charis que, ao se dar, multiplica-se.
Aquele gesto de entrega de Frei Maximiliano foi tão vivaz em sua autenticidade que pode, com acerto e propriedade, ser reconhecido como uma obra da charis, da caridade que se doa. O termo grego charis, do qual se origina a palavra portuguesa graça (cujo significado, especialmente bíblico, é “favor divino gratuito”), relaciona-se a “mostrar favor para” (charizomai), de modo especial (ou seja, quando se refere à ação de Deus), um favor imerecido, gratuito. Ora, a história em momento algum registra que Frei Maximiliano tenha recebido algum tipo de benefício daquele pai de família, de modo que sua entrega no lugar dele torna-se uma memória, uma smrtu ainda mais vibrante daquela entrega gratuita que o Verbo faz de si mesmo no Calvário para a humanidade, gratuidade já expressa quando, sobre a sua vida, Ele mesmo declarara: “Ninguém a tira de mim, mas eu a dou livremente. Tenho poder de entregá-la e poder de retomá-la; esse é o mandamento que recebi do meu Pai".” (Jo 10, 18). Contemplando a entrega do Mestre, Frei Maximiliano foi capaz de guardá-la tão intensamente em seu ser que ela se transformou nele em smarâmi, em “minha memória”. Assim marcado por tal gesto divino, Frei Maximiliano foi seu fiel mártir, sua fiel testemunha, alguém que fez a memória acontecer, não apenas por referi-la verbalmente mas, principalmente, por realizá-la atualmente.
“Ofereço-me para morrer no lugar dele” foi de uma tal parresia, de uma tal audácia que aquela atitude sonora até hoje ressoa nos ouvidos do mundo, o mesmo mundo que um dia horrorizou-se ante as atrocidades da Guerra e do Nazismo. Fazermos memória de São Maximiliano não pode ser, pois, apenas uma simples recordação. É preciso que, tal como ele atualizou a sua smrtu, nós também nos esforcemos para fazê-lo. A este respeito, é conveniente trazermos presentes as palavras da oração feita pelo saudoso papa João Paulo II na ocasião em que Frei Maximiliano foi declarado beato:


Oremos: Ó Deus, vós que abrasastes o bem aventurado o Maximiliano Maria, sacerdote, no amor à virgem imaculada e o enchestes de zelo pela salvação dos homens e de amor para com o próximo, concedei, nós vos pedimos, que nós, mediante a sua intercessão, lutando pela vossa glória, no serviço dos homens, nos assemelhemos aos (sic) vosso Filho, por todos os dias de nossa vida. Por nosso senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém. (MLODOZENIEC, 1980, p. 160)


Notemos: a vida de São Maximiliano impele ao desejo de nos assemelharmos Àquele que era exatamente o núcleo da memória de São Maximiliano. Pela intercessão de Maria Santíssima, a quem Frei Maximiliano consagrou a sua vida, ele pôde, com firmeza e convicção, ser declarado santo sob um título bastante conveniente: mártir da caridade. Sem dúvidas, São Maximiliano foi uma autêntica testemunha, uma autêntica memória, uma inegável smrtu dAquele que deu a vida por todos. São Maximiliano foi mártir no mais genuíno sentido desta palavra: fez, diante dos homens e do próprio Deus, uma verdadeira smrtu daquela realidade sublime do calvário, cuja vivacidade continuamente conservava diante de si. Além disso, seu martírio foi atualização eloqüente da charis divina que se doa gratuitamente, de modo que também não podia ser mais conveniente acrescentar ao termo “mártir” o termo “caridade”. O “Ofereço-me para morrer no lugar dele” de São Maximiliano foi tão intensamente vivaz enquanto smrtu, que merece, sem excusas, que o tornemos, cada um de nós, smarâmi. Com a graça de Deus.


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Wagner da Silva Faustino, pré-noviço ofmconv.

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