TESTEMUNHO DO NOSSO NOVIÇO FREI MARCELO, SOBRE SUA FORMAÇÃO EM NOSSO SEMINÁRIO


“Eis um rei que tem dois servos fiéis. Um está armado; o outro, porém, desarmado. Manda ambos à batalha contra os inimigos. O armado marchou virilmente contra o inimigo. O desarmado, porém, fala assim ao seu senhor: ‘Senhor, como vês, armas não tenho, mas, por teu amor, marcharei para a peleja, mesmo sem elas.’ Ora, vendo o rei a fidelidade daquele servo, disse aos seus ministros: ‘Ide e preparai as armas para guarnecer este meu servo fiel e ponde nele o selo de minhas armas’.” Beato Egídio de Assis.

            Percorrer as veredas de um processo formativo é sempre uma tarefa repleta de riscos. Comumente, não se conhece integralmente o caminho a ser percorrido e, mesmo diante daquilo que aparenta ser conhecido, as vicissitudes que interpelam quem neste processo se encontra podem lhe exigir transformações consideráveis. Em se tratando do percurso da vida religiosa, estes riscos são potencializados, uma vez que quem com ela se aventura estará sempre a mercê de novos desafios, novos aprendizados, novos passos a serem dados. Isto é, neste tipo de seguimento o processo formativo não possui efetivamente um fim. Vivê-lo é fazer a experiência constante de uma opção que transforma o optante. Uma opção, porém, que é diferenciada. Com base na experiência de Egídio, três coisas parecem mover aqueles servos fiéis à fidelidade de seu senhor; por primeiro, uma autêntica liberdade de ação, uma vez que se deixaram ser impulsionados unicamente pelo amor – este que é, então, um motor ao serviço. Sendo livres e amando, adquiriram maturidade para seguir em frente. Se nos atentarmos a estes três pontos, ainda que sujeitos a uma sociedade que macula tais ideais, iremos firmemente à batalha.
            Diante do impacto de um chamado, ao qual atribuímos a Deus, fazer opção por Ele deixa de ser uma relação de escolha para se tornar relação de mandato. Não que isso diga de obrigação ferrenha. Quando ocorre compulsão, de pesada coação, a vida é levada de qualquer modo, sem interesse, sem envolvimento, e por isso mesmo maculada em seus ideais. Na verdade nem mesmo se concretiza como um verdadeiro chamado, porque não vem de Deus – Ele nunca nos impulsiona por compulsão. E assim, dificilmente há frutos consideráveis. Mandato de Deus ao vocacionado diz liberdade de ação. No entanto, em sua liberdade, aquele que se relaciona com um chamado de tal tipo vê-se em comprometimento tal que a entrega é total, inteira, viva. E aqui a experiência adquire sua força de envolvimento. E por envolver, exige, sobretudo, afinco.
             Neste sentido, “marchar para a peleja” de uma vida religiosa emerge como uma resposta de amor porque, primeiro e fundamentalmente, reconhecemo-nos alvos de um amor pessoal e infinito. Somente conscientes do amor que Deus tem por nós, e que nos chama ao caminhar de uma vida religiosa, é que realmente teremos o necessário para responder a este chamado. Concomitantemente, obteremos o suficiente. E assim, irradiar o que Dele recebemos torna-se uma consequência quase que natural. Eis, então, a riqueza da vida religiosa e, consequentemente, de um processo formativo bem vivido: ao descobrirmos o segredo fundamental de toda vida e vocação, a saber, o de que o amor de Deus nos toca pessoal e profundamente, poderemos levar este toque de amor aonde formos. Como na dinâmica musical; uma batida primeira que com sua força de envolvimento e progressão repercute naturalmente no que deixa-se ser tocado, por sua vez revelando e transmitindo aquela primeira percussão. Ocorre harmonia. E é exatamente desta mesma maneira harmônica que devemos lidar com a vida religiosa: permitindo que Deus encontre em nós a abertura necessária, fazendo-nos instrumentos dóceis às mãos Dele, para sempre repercutir seu toque.
            Segundo frei Egídio, o amor nos impulsiona a marchar ainda que nos julgamos carentes das “armas”. Constantemente, sobretudo em período de preparação para o futuro, corremos o risco de utilizarmos como desculpa ao bom prosseguimento ao qual nos dispomos as nossas próprias falhas e fraquezas, julgando-nos despreparados demais, falhos demais, em virtude da ausência de instrumentos e dons necessários. Assim, as dificuldades são postas como empecilho à ação da graça de Deus, à realização do que Ele pede de nós. De fato, não devemos negar nossa condição de homens fracos e pecadores. Entretanto, a dinâmica do amor verdadeiro – este proveniente de Deus – não parece seguir a lógica de uma sociedade que cultua a busca extremada pela funcionalidade de tudo, sua utilidade, e que diante do anseio lucrativo julga as coisas a partir do grau de benefício que elas podem oferecer. Deus não nos trata assim; Ele não nos pede sucesso, êxito, premiação, mas sim fidelidade. Se lhe somos fiéis, então com Ele maravilhas nos esperam, contanto que nos apoiemos infinitamente mais no amor Dele do que em nossas fraquezas.
            A esfera religiosa corre o risco de ser afetada por esta maneira reducionista de ver o mundo. Diante dos alarmes contemporâneos, o risco do homem religioso se prender ao lançamento estrutural da religião (e da vida religiosa, de forma especial), devido à imposição ferrenha de suas regras, é considerável. Modelar-se segundo normas pré-estabelecidas será superficialmente um objetivo mais fácil se contra ele colocarmos a vivência de uma experiência que demanda trabalho e esforço. Não é este a defesa, contudo, de uma quebra de regras. Estas são essenciais, no sentido ontológico do termo. Fazem parte, sustentam e conservam a estrutura religiosa. Entretanto, a cada novo olhar de amor para com elas produz, no religioso, uma vivência específica, que longe de fragmentar a estrutura, dá dinamismo a ela. Como metáfora, há a simbologia da vela. A sua estrutura é rígida, afinal é pela dureza da cera que ela adquire a forma de sustentação que tem e precisa para ser útil. Ainda assim, somente a cera firme é insuficiente, se olharmos pra sua função. O vigor da vela parece estar em sua chama. Este é o carisma, a particularidade de cada forma de vida, o brilho especial que faz da vida “vida”, o esplendor que ilumina uma estrutura imóvel. O símbolo do fogo é riquíssimo: sem a sustentação da vela, facilmente se perde e acaba. Do mesmo modo, sem as regras, sem a fundamentação estrutural da religião, o carisma se apaga. Mas o vigor está em transformar pessoalmente em vivência o que parece já nos estar dado, como norma a ser obedecida. Obediência, talvez, esteja nisso: em saber escutar o sustentáculo que nos firma em raízes sólidas e dessa escuta retirar o necessário ao crescimento pessoal e comunitário, humano e espiritual.
A vida religiosa foi também afetada pelo clamor à pressa do cotidiano. Quase não mais se vive lado a lado com tempo (relação não apenas sadia, mas natural); e aí enxergamos duas posturas equiparadamente negativas: tanto pela experiência de um saudosismo infértil que paralisa o tempo, quanto pela vivência do presente apenas em vistas de realização futura – e possivelmente inalcançável. Assim, ou se quer enquadrar o hoje em vivências já ultrapassadas, a qualquer custo e com que consequências desastrosas isso possa gerar, uma vez que não leva em conta o contexto decisivo da realidade, ou se quer atropelar o hoje pela esperança de um amanhã. Falamos, deste modo, de um tempo das esperas que deve ser vivido plenamente. Esperar, aqui, não é de modo algum cruzar os braços em tediosa agonia. Esperar é ter esperança sem ser desesperado. E em vista daquela, vive-se o hoje. Em período de formação religiosa essa constatação é amplamente trabalhosa. Não é nada fácil perceber a dinâmica formativa como aquilo que ela realmente é: um processo de formação, que, é claro, espera um futuro, mas que se dá essencialmente no hoje. É preciso estarmos completamente dispostos às dinâmicas que com certeza têm em vista o nosso melhor desenvolvimento, mas que nos impulsionam a sermos integralmente aquilo que somos hoje – e isso nos fará melhores se houver um amanhã. A pressa de se chegar ao que seria “o fim da jornada” pode nos fazer perder de vista o encanto da paisagem, que se encontra desde já durante a travessia. Por sua vez, ignorar os objetivos a serem alcançados é realizar um percurso sem rumo certo, e por isso é estar perdido, vagando. Em qualquer destas posturas um mesmo é o resultado: um futuro incerto, por ser buscado sem uma base sólida edificada no presente.
            Estar disposto às transformações de uma nova vida é sempre um desafio, que em se tratando do contexto religioso permanece sendo diário. De fato, a maturidade com a qual se ergue a postura de um religioso precisa estar bem fundamentada, uma vez que dele será pedido uma série de respostas a uma série de questionamentos. Hoje, estas problematizações são inúmeras. Diante disso, é necessário que aquele que se aventure nos caminhos de uma vida religiosa esteja disposto aos perigos certos que o estarão esperando no percurso. É certo que ao nos pormos em itinerário já traremos, de nossa vida já vivida, alguma bagagem sólida. A grande questão é o que com ela fazemos: uma vez que as possibilidades são decisivas à edificação de um religioso frustrado, saudosista, infeliz, ou ainda realizado, íntegro, feliz. Para qualquer dos caminhos, não deve haver eliminação do que já somos, nem tampouco teimosia para com a necessidade de deixar certas coisas. A bagagem vai sendo reforçada e esvaziada à medida dos ditames do percurso. E neste meio encontra-se a maturidade: em saber se modelar corretamente aos ditames propostos (por nós mesmos, sobretudo) sem se podar definidamente, a ponto de haver perdas irreparáveis.
É este o perigo intrínseco da experiência religiosa: lidar com o desconhecido – com o que nos parece diferente: seja um irmão, um superior, ou mesmo Deus, a partir de nossa própria identidade, quase sempre, em vistas de formação, uma identidade em construção. Dificilmente se estará “pronto e acabado”, mas ainda que estejamos na condição de “desarmados” como um dos servos da história de frei Egídio, e tenhamos que dizer com ele que armas não temos”, Deus estará sempre disposto a imprimir seu selo em nós, à medida de nossa fidelidade ao seu chamado. Esta, por sua vez, adquire vigor a partir do momento em que maduros o suficiente para tomarmos uma decisão livre por receber e transmitir o amor de Deus, e então nos colocamos a caminho, com todos os seus riscos. Deus estará assim, guarnecendo, acompanhando e sustentando a caminhada; fazendo-nos aptos ao percurso e à peleja.


Frei Marcelo Borges, Noviço OFM Conv.

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