AMAR A DEUS ACIMA DE TUDO



      Sempre somos impelidos a nos perguntar sobre o amor de Deus. Por mais que reflitamos e falemos tanto acerca desse assunto nunca conseguimos alcançar a sua profundidade. Os mistérios de Deus são insondáveis. Qualquer atitude humana ou alguma iluminação mística ainda será limitada para descrever ou presenciar a imensidão de Deus e de suas obras.
Para nós cristãos o amor de Deus é o que nos move e nos dá vida. Pelo Seu amor fomos resgatados e redimidos para que tenhamos a vida eterna. Como, portanto, anunciar esse amor? Bem, certamente, antes de tudo, devemos estar enraizados na fonte da Palavra de Deus e tocados pelo exemplo de Cristo. Fora disso, não há atitude cristã. Atitudes boas são diferentes de atitudes cristãs. Explico.
As atitudes boas são aquelas que qualquer pessoa pode exercer, até mesmo uma pessoa que não acredita em Deus. Portanto, essas atitudes são vazias de sentido espiritual, são feitas e se encerram nelas mesmas. Ainda existem ações boas que têm um fim lucrativo, ganancioso ou interesseiro, sobre essas nos questionamos se são boas mesmo ou se o que querem é visar as consequências das mesmas.
As atitudes cristãs são as de Jesus, porém, nós podemos agir como tal, aliás, esse é nosso dever. Jesus fez tudo aquilo com o povo por amor a Deus, esse amor primeiro o impulsionava a amar o próximo, e aí o amor a Deus alcançava a plenitude. Quando temos boas ações e a fazemos nos espelhando em Cristo agimos de forma cristã, pois colocamos como foco o amor a Deus. As atitudes cristãs não podem ter interesses para o bem próprio, mas para o bem do outro e para Deus. A gratuidade está em não esperar o benefício corporal para si, mas em aguardar a morada celestial.
As atitudes cristãs se voltam todas para o amor a Deus. No Evangelho de São Mateus, há um momento em que os doutores da lei vão questionar Jesus para pô-lo à prova. E um deles pergunta: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?” Respondeu Jesus: Amarás o Senhor teu Deus de todo teu coração, de toda a tua alma e de todo teu espírito (Deut 6,5). Este é maior e o primero mandamento (Mt 22, 36s). Antes de cumprirmos qualquer dever é certo olhar para nossa vida e perceber se estamos ou não cumprindo com o maior deles antes de tudo. Qual o sentido de agir por nós mesmos?
O ápice do amor de Deus está na crucificação de Seu Filho. “Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna”(Jo 3, 16). Todos nós somos convidados para doarmos a nossa vida como Cristo, mas ninguém poderá fazê-lo como Nosso Senhor. Mesmo os mártires não conseguiram cumprir suas missões com a plenitude da de Cristo, pois a atitude de Cristo tem sentido nela mesma, mas a dos mártires só tem sentido na entrega total a Deus, fixando a atitude de Jesus.
Se não estamos unidos ao Cristo, nossas ações não são válidas para a nossa fé. Acolher o outro, anunciar a Boa-nova de Deus e cumprir com os preceitos da religião só tem sentido se, antes de tudo, acolhemos o amor de Deus e a sua entrega na cruz como esperança de vida eterna. As tribulações e enfermidades de nosso cotidiano têm sentido espiritual quando se unem aos sofrimentos de Cristo Crucificado. As nossas alegrias e conquistas tem sentido pleno quando nos unimos à glória de Jesus. Por fim, tudo o que fizermos deve ter seu fim em Deus, por meio de seu Filho.
“Nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem para conosco. Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (I Jo 4, 16). Esse amor de Deus muda a nossa vida e é capaz de fazer até os maiores impossíveis. Desde o Antigo Testamento Deus tem manifestado o seu poder por amor ao seu povo, em Jesus esse amor alcança a plenitude e depois disso o amor é anunciado a todos. Só esse amor pode mudar a nossa vida e torná-la mais parecida com a vida de Cristo.
Se não tivermos por objetivo assemelharmo-nos ao Cristo, não tem porque se dizer cristão. Mas, para isso, não é preciso o pleno conhecimento do amor de Cristo, pois “a caridade de Cristo desafia todo conhecimento”(Ef 3, 19). É possível perceber esse amor de Deus até certo ponto, mas depois disso só a fé poderá suprir nosso anseio. Se amamos a Deus verdadeiramente, não necessitaremos de provas, somente de fé. Como disse são Paulo, a razão não é suficiente para adentrar aos mistérios do caridade de Cristo.
Para as pessoas do mundo o conceito de amor se deturpou e alcançou limiares promíscuos e desastrosos. Mas, como cristãos, devemos mostrar que o verdadeiro amor é aquele que vem de Deus, nos atinge e toca os outros. O amor não está na carne, na matéria, ele vem do Espírito. Como somos humanos, devemos entregar-nos por esse amor mesmo que nossa carne sofra, mas na certeza de que ele nos garantirá a habitação dos justos, se for praticado com sinceridade e pureza.
Nosso Pai Seráfico São Francisco de Assis quer deixar bem claro a urgência do amor a Deus. É um amor gratidão que gera vida. “Amemos, portanto, a Deus e adoremo-lo com coração puro, porque ele mesmo, querendo isto acima de tudo, disse: os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade (Jo 4,23). Logo, aos que o adoram convém adorá-lo em espírito da verdade (Jo 4,24). E digamos-lhe louvores e orações de dia e de noite (Sl 31,4), dizendo: Pai nosso que estás nos céus (Mt 6,9), porque devemos sempre orar e não desanimar (Lc 18,1)”(Escritos de São Francisco de Assis, II Carta aos fiéis 19).
O amor de Deus se confirma quando nós fazemos tudo para o seu louvor e por gratidão. A vida é um dom e deve ser reconhecida como tal. Por mais que as intempéries de nossas vidas venham a nos desanimar, é bom e louvável perseverar. Como citou o Pobrezinho de Assis, devemos sempre orar e não desanimar. A oração nos aproxima de Deus, e a perseverança nos leva para junto dele.
Tudo o que temos e somos deve estar nas mãos do Pai, por amor. Todas as nossas ações devem expressar esse amor. Com toda a nossa força, com toda a nossa alma, com todo o espírito e com toda a nossa vida devemos amar a Deus antes de tudo, e o resto será acrescentado conforme a vontade do Sumo e Eterno Bem. A Virgem Maria, por amor a Deus, nos guia e conduz para o Pai. Tanto que são Maximiliano Maria Kolbe em sua consagração diária à Virgem Imaculada rezava oferecendo a ela as suas orações, sacrifícios e ações, para que pudesse ser útil na construção do Reino de Jesus no mundo.
Para terminar, transcrevo esse trecho dos Escritos de São Francisco de Assis para nos inspirar ao amor de Deus:


“Amemos todos, de todo o coração, com toda a alma, com todo o pensamento, com todo o vigor (cf. Mc 12,30) e fortaleza, com todo o entendimento (Mc 12,33), com todas as forças (cf. Lc 10, 27), com todo o empenho, com todo o afeto, com todas as entranhas, com todos os desejos e vontades ao Senhor Deus (Mc 12,30); a ele que nos deu e nos dá a todos nós todo o corpo, toda a alma e toda a vida, a ele que nos criou, nos remiu e somente por sua misericórdia nos salvará (Tb 13,5); a ele que a nós, miseráveis e míseros, pútricos e fétidos, ingratos e maus, fez e faz todos os bens. Portanto, nada mais desejemos, nada mais queiramos, nada mais nos agrade ou deleite a não ser o nosso Criador, Redentor e Salvador, único deus verdadeiro, que é o bem pleno, todo o bem, o bem total, verdadeiro e sumo bem, o unicamente bom (cf. Lc 18,19), piedoso, manso, suave e doce, o unicamente santo, justo, verdadeiro, santo e reto, o unicamente benigno, inocente, puro, de quem, por quem (cf. Hb 2,10) e em quem está todo o perdão, toda a graça, toda a glória de todos os penitentes e justos, de todos os bem-aventurados que se alegram juntamente com ele nos céus. Nada, portanto, nos impeça, nada nos separe, nada se interponha entre nós; em qualquer parte, em todo lugar, a toda hora, em todo tempo, diária e continuamente, creiamos todos nós de verdade e humildemente e tenhamos no coração e amemos, honremos, adoremos, sirvamos, louvemos e bendigamos, glorifiquemos e superexaltemos, magnifiquemos e rendamos graças ao altíssimo e sumo Deus eterno, Trindade e Unidade, Pai, Filho e Espírito Santo (cf. Mt 28,19), criador de todas as coisas e salvador de todos os que nele crêem e esperam e o amam, a ele que é sem início e sem fim, imutável, invisível, inenarrável, inefável, incompreensível, insondável (cf. Rm 11,33), bendito, louvável, glorioso, superexaltado (cf. Dn 3,52), sublime, excelso, suave, amável, deleitável e totalmente desejável acima de todas as coisas pelos séculos. Amém”. (RNB XXIII, 8-11)

Israel Sobrinho, pré-noviço OFM Conv.

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